Mês de Consciencialização do Cancro da Mama

Segundo o relatório de 2017 do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, existe um aumento anual de 3% nos novos casos de doenças oncológicas, onde o cancro da mama ocupa um lugar de destaque no sexo feminino.

Felizmente Portugal encontra-se nos primeiros lugares a nível mundial no que diz respeito ao rastreio deste tipo de cancros, isto traduz-se numa taxa de sobrevivência que ronda os 90% (segundo o mesmo relatório). Algo que faz sentido pois trata-se uma doença onde o rastreio e diagnóstico atempado podem mudar completamente o tipo de desfecho.

Mas voltando às perguntas iniciais, existem outras, mais específicas ainda, que surgem naturalmente: “que factores de estilo de vida podem estar envolvidos neste aumento de incidência?” e “Que papel tem a alimentação na prevenção do cancro da mama?”

Que factores de estilo de vida podem estar envolvidos neste aumento de incidência?

Esta parece fácil de responder, geralmente todos temos a ideia de uma mão cheia de factores: Excesso de álcool (e outras drogas), má alimentação e tabaco. Estes 3 principalmente estão na ponta da língua. Mas há outros factores importantes que muitas vezes nos escapam e que, para além disso, são muito mais comuns do que seria de imaginar. A falta de sono por exemplo, por efeitos negativos no ciclo circadiano e consequentemente alteração da expressão de certos genes, está também implicada nestas doenças.

O stress é outro grande factor muitas vezes subestimado. Um estudo publicado este ano que analisou mais de 50 anos de literatura científica verificou uma associação positiva entre o stress psicológico e a incidência de cancro da mama. Por fim, outro grande factor que se tem vindo a estudar nos últimos anos, e que tem recebido bastante mediatismo, os níveis de vitamina D. Esta vitamina que muitos de nós tem em níveis insuficientes é de fundamental importância para o nosso organismo. Isto é demonstrado pela presença em praticamente todas as células do nosso organismo de um receptor específico para ela. O que acontece é que apesar de ser chamada uma vitamina, a sua principal fonte não é nenhum alimento em específico, mas sim o sol, melhor dizendo, a radiação UV-B emitida pelo sol. Essa radiação, em contacto com a pele, leva ao início da produção da vitamina D.

Ao vermos como ela é produzida, rapidamente percebemos o porquê dos níveis tão baixos na nossa população. No nosso país mesmo os que de nós tem a pele mais clara (necessitam de menos luz solar para a produzir) apenas a produzem eficazmente durante cerca de 6 meses por ano e nesses meses geralmente fugimos da luz solar a sete pés. Seja por medo, seja pelo nosso estilo de vida indoor. Não há dúvidas que a radiação UV pode levar a cancro da pele, no entanto há um ponto de equilíbrio entre o tempo e a intensidade de radiação que leva a uma óptima produção de vitamina D e aquela que causa escaldões e aumenta o risco de cancro. Em termos práticos isto resume-se a pouco mais de 15 min de exposição solar, 3 vezes por semana, com cerca de 35% do corpo exposto (tronco nu).

Muitos de nós olharão para esta nova informação com algum desespero. Se controlar o consumo de álcool e drogas é, para a maior parte de nós, algo facilmente controlável, já a gestão do stress, um sono reparador e manter os níveis de vitamina D óptimos parece uma tarefa muito mais complicada. No entanto por muito difícil que seja controlar estes aspectos por estarem muitas vezes já enraizados na nossa rotina e até na nossa sociedade (não me parece que uma redução de horário laboral para que as pessoas tenham possibilidade de fazer todos os seus afazeres pessoais calmamente, possam também ir dormir mais cedo e já agora 20 minutos de pausa nos meses de verão para produzir alguma vitamina D ao ar livre esteja na mente mesmo dos patrões mais liberais), há algo que todos fazemos várias vezes durante o dia que tanto pode ser uma grande ajuda como altamente prejudicial para a nossa saúde e risco de cancro: a alimentação. O que nos leva à segunda questão.

“Que papel tem a alimentação na prevenção do cancro?”

Esta pequena pergunta teria conteúdo para um livro, aliás existem alguns livros sobre este tema que têm obtido grande atenção mediática. Isto é importante porque demonstra uma consciencialização crescente de que a alimentação saudável não se limita a ingerir as calorias que precisamos para o correcto funcionamento do organismo mas também constitui a linha da frente de protecção contra doenças oncológicas (e não só). Por outro lado, a alimentação pode também constituir um factor importantíssimo para o aumento do risco de doenças oncológicas. Alguns estudos referem até que a nutrição tem implicação directa na origem de 35% dos cancros

Dada a complexidade da questão, falaremos apenas da evidência mais recente para a prevenção, tratamento e recuperação do cancro da mama.

Prevenção

Um estudo publicado em 2016 no Contemporary Oncology analisou alguns dos compostos presentes nos alimentos que estão implicados no risco de cancro da mama, sendo que se destacam os seguintes:

Aumento do risco:

Agentes mutagénicos derivados da carne (tecnicamente conhecidos como aminas heterocíclicas e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos), como o nome indica, são compostos formados na carne quando esta é sujeita a determinadas condições. Nomeadamente, aquecimento intenso de forma prolongada. Estes compostos têm realmente um potencial cancerígeno bastante elevado tanto que um estudo verificou que mulheres com um consumo consistente de carne bem passada possuíam um risco 4,6 vezes maior de cancro da mama. Uma forma de evitar que isto aconteça é marinar a carne e comer carne mal passada, a redução do consumo de carne poderá ser uma boa estratégia também;

Ingestão de álcool é provavelmente o factor alimentar mais implicado na origem do cancro da mama. O risco é principalmente maior para o consumo intenso e episódico.

Diminuição do risco:

Rácio ómega-6  e ómega-3 é sem dúvida um dos marcadores mais importantes para a nossa saúde. Basicamente consiste no equilíbrio de ingestão entre gorduras ómega-6 e ómega-3. É cada vez mais evidente aos olhos da ciência que dietas muito ricas em alimentos processados, cereais e carne têm um rácio desequilibrado destas gorduras, estando directamente implicado num maior risco de cancro da mama (e de outras doenças). Já uma dieta mais rica em frutos secos, sementes e peixes gordos será protectora nesse aspecto.

Fibra é sem dúvida um elemento importante para a nossa saúde, sendo que já foi observada uma associação entre o aumento de 10 g/dia de ingestão de fibra e uma redução de aproximadamente 7% no risco de cancro da mama.

Vitamina D já foi falada anteriormente mas faltou referir que no que toca ao cancro da mama ter 50 ng/ml de vitamina D sérica (dentro dos valores óptimos) está associada a um risco 50% menor de cancro da mama, quando comparada com um nível baixo (10 ng/ml).

Resumindo toda esta informação, há comportamentos relacionados com o risco de cancro mais fáceis de controlar o que outros. Se por um lado será simples adicionar mais frutos secos e peixes gordos à nossa alimentação e apanhar um pouco de sol, o mesmo não se pode dizer sobre a gestão de stress e sono, em que muitas vezes o ritmo alucinante das nossas vidas acabar por levar a melhor (ou neste caso a pior). Acima de tudo é importante perceber que vários comportamentos e escolhas que fazemos têm uma implicação directa no risco de doenças oncológicas e o facto de as identificarmos e percebermos dá-nos as ferramentas necessárias para reduzir a incidência destas doenças.

Rafael Carlos
Nutricionista
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